segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Farroupilhas separatistas?

Nessa época do ano se multiplicam as manifestações e se aumenta a exploração da história para manter certas visões. De um lado aparecem os cínicos : "os gaúchos comemoram uma guerra que perderam...". De outro os ufanistas: "sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra". Mas a história não se faz ( ou não se deveria fazer...) no ufanismo, no misticismo e no cinismo. Para isso é necessário analizar as fontes relativas a Guerra dos Farrapos. Bons historiadores agem assim.

Revolução Farroupilha

Entre os que eu considero bons historiadores, recomendo a obra (fininha e importante) do Professor Luiz Roberto Lopez, A Revolução Farroupilha - a revisão dos mitos gaúchos. Na obra o autor contesta a utilização do termo "Revolução" pra nominar o movimento de 1835. Não foi revolução porque não houve mudança estrutural na sociedade da época. E não foi separatista.  Segundo Lopez,
"Um estudo sobre os dispositivos da Paz de Ponche Verde lança uma luz ao estudo sobre a natureza da luta travada (...). O tratado ofereceu condições razoáveis e até suaves aos perdedores - condições que não seria de imaginar aplicadas a rebeldes e que os historiadores tradicionais da Revolução Farroupilha justificam, argumentando que a bravura dos combatentes gaúchos forçou o Império a adotar a conciliação, ainda mais que o Rio Grande seria útil nas guerras platinas. Este segundo argumento é pertinente, mas a bravura, por si só, não serve como causa, já que as revoltas de Palmares, Cabanagem e Balaiada foram resolvidas à maneira de paz cartaginesa e também lá sobraram bravura, coragem e dedicação."
Aí é que a coisa fica evidente. Houve bravura quando os explorados se levantaram contra a classe exploradora e a resposta foi o massacre. Aqui a tal "Revolução" foi uma disputa por dentro de facções da mesma classe. Então a resposta foi muito mais branda, um tratado de paz que acatava algumas das principais reivindicações da grande parcela das lideranças farrapas. Lideranças essas que, diferente das lideranças da Cabanagem ou da Balaiada, tinham a mesma origem de classe das elites imperiais.

O Cabano - Pintura de Alfredo Norfini

E então, quando se consegue o atendimento a reivindicação de aumento do imposto sobre o charque platino, de repente os tais ideais separatistas e republicanos são colocados na sacola e os líderes farrapos voltam pras suas estâncias charqueadoras e defendem o império brasileiro nas lutas platinas, contra as nascentes repúblicas da Argentina e Uruguai...

Azevedo Dutra, Retrato do gen Netto

General Netto. Em 1836, "republicano", em 1866 faz guerra contra a República...

O próprio general Netto, que no 11 de setembro de 1836 havia proclamado a República de Piratini vai levar seu exército pessoal a lutar na Guerra do Paraguai contra a República paraguaia. Defendendo a bandeira do império brasileiro.

Ou seja, a história é uma senhora muito exigente e muito sábia. Deve ser respeitada, problematizada sim mas jamais idolatrada e distorcida. A guerra dos farrapos teve sim sua importância, não foi uma derrota se levarmos em consideração que a elite riograndense teve seus pleitos atendidos e também não levou nossas façanhas a servirem de modelo a toda a terra.


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