segunda-feira, 26 de setembro de 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ando só - O Exército de um homem só

Existe uma certa resistência aos Enghaw (como os fãs os chamam). Muito disso é por causa de uma certa megalomania disfarçada de coitadismo que por alguns momentos esteve por tras da carreira do Humberto Gessinger e da banda (na formação clássica com o excelente guitarrista Augusto Licks e o batera Carlos Maltz).

Mas eu quando jovem era fanático por eles. Engenheiros era quase uma religião pra mim. Se gostar deles era ser cafona, confesso aqui minha cafonisse. Mas os Engenheiros são importantíssimos e geniais naquilo que se propoem a ser, uma banda de rock-pop bastante sofisticada. Não são uma banda de rock'n roll. Não são "a maior banda dos últimos tempos da última semana"(Titãs). Não são a "banda mais bonita da cidade" (que é uma grata surpresa dessa época Facebook...). Mas apresentam canções com melodias certeiras (às vezes repetitivas, mas necessárias) e com letras elaboradas.

Humberto Gessinger começa a ser valorizado em POA como letrista e compositor. A formação GLM não existe mais e Enghaw também está desativado, agora o que existe é o Pouca Vogal, em parceria com o guitarrista Duca Leindecker, da  Cidadão Quem. Mas mesmo assim Gessinger foi homenageado em uma edição do Troféu Açorianos de Porto Alegre.

Espero que ainda possa ouvir a formação GLM voltar. Espero poder ver Gessinger e suas canções estudadas com maior atenção e sem preconceitos. Quem sabe se (re)descobre que Engenheiros do Hawaii não era apenas uma bandinha boba querendo ser grande...

Farroupilhas separatistas?

Nessa época do ano se multiplicam as manifestações e se aumenta a exploração da história para manter certas visões. De um lado aparecem os cínicos : "os gaúchos comemoram uma guerra que perderam...". De outro os ufanistas: "sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra". Mas a história não se faz ( ou não se deveria fazer...) no ufanismo, no misticismo e no cinismo. Para isso é necessário analizar as fontes relativas a Guerra dos Farrapos. Bons historiadores agem assim.

Revolução Farroupilha

Entre os que eu considero bons historiadores, recomendo a obra (fininha e importante) do Professor Luiz Roberto Lopez, A Revolução Farroupilha - a revisão dos mitos gaúchos. Na obra o autor contesta a utilização do termo "Revolução" pra nominar o movimento de 1835. Não foi revolução porque não houve mudança estrutural na sociedade da época. E não foi separatista.  Segundo Lopez,
"Um estudo sobre os dispositivos da Paz de Ponche Verde lança uma luz ao estudo sobre a natureza da luta travada (...). O tratado ofereceu condições razoáveis e até suaves aos perdedores - condições que não seria de imaginar aplicadas a rebeldes e que os historiadores tradicionais da Revolução Farroupilha justificam, argumentando que a bravura dos combatentes gaúchos forçou o Império a adotar a conciliação, ainda mais que o Rio Grande seria útil nas guerras platinas. Este segundo argumento é pertinente, mas a bravura, por si só, não serve como causa, já que as revoltas de Palmares, Cabanagem e Balaiada foram resolvidas à maneira de paz cartaginesa e também lá sobraram bravura, coragem e dedicação."
Aí é que a coisa fica evidente. Houve bravura quando os explorados se levantaram contra a classe exploradora e a resposta foi o massacre. Aqui a tal "Revolução" foi uma disputa por dentro de facções da mesma classe. Então a resposta foi muito mais branda, um tratado de paz que acatava algumas das principais reivindicações da grande parcela das lideranças farrapas. Lideranças essas que, diferente das lideranças da Cabanagem ou da Balaiada, tinham a mesma origem de classe das elites imperiais.

O Cabano - Pintura de Alfredo Norfini

E então, quando se consegue o atendimento a reivindicação de aumento do imposto sobre o charque platino, de repente os tais ideais separatistas e republicanos são colocados na sacola e os líderes farrapos voltam pras suas estâncias charqueadoras e defendem o império brasileiro nas lutas platinas, contra as nascentes repúblicas da Argentina e Uruguai...

Azevedo Dutra, Retrato do gen Netto

General Netto. Em 1836, "republicano", em 1866 faz guerra contra a República...

O próprio general Netto, que no 11 de setembro de 1836 havia proclamado a República de Piratini vai levar seu exército pessoal a lutar na Guerra do Paraguai contra a República paraguaia. Defendendo a bandeira do império brasileiro.

Ou seja, a história é uma senhora muito exigente e muito sábia. Deve ser respeitada, problematizada sim mas jamais idolatrada e distorcida. A guerra dos farrapos teve sim sua importância, não foi uma derrota se levarmos em consideração que a elite riograndense teve seus pleitos atendidos e também não levou nossas façanhas a servirem de modelo a toda a terra.


sábado, 17 de setembro de 2011

Bach - Paixão segundo Matheus e João

Johan Sebastian Bach foi um homem que revolucionou a música, gênio que produziu uma quantidade imensa de composições de alta qualidade técnica, principalmente as suas cantatas. Não se aventurou no campo das óperas, mas isso de forma alguma retira dele o seu lugar no Panteon dos mais significativos compositores da história.

Conta-se que foi  o compositor alemão do romantismo, Mendelssohn, quem redescobriu a Paixão segundo Matheus (Matheuspassion) apresentando a obra em 1829 em Berlim, sendo essa a primeira vez que a Paixão (em uma versão resumida) foi executada e ouvida fora de Leipzig.

Bach foi um importantíssimo criador de hinos luteranos (que hoje são reverenciados por admiradores da música erudita, independente de suas crenças religiosas ou ausência delas) e também compôs os belos oratórios "Paixão segundo São João" e "Paixão segundo São Matheus". Os solistas são muito exigidos nessas peças e os coros são igualmente bastante difíceis. As harmonias matemáticamente estudadas exigem das vozes muita sofisticação técnica e apurada compreensão dos temas que estão sendo executados. Texto e contexto devem ser complementares e integrados.

Acima coro da Paixão segundo Matheus, escrita provavelmente em 1727. Abaixo o lindíssimo Ruht wohl, ihr heilegen Gebeine seguida de Ach Herr, lass dein lieb Engelein que encerram a Paixão segundo São João, que foi composta muito provavelmente para as celebrações da sexta-feira santa do ano de 1724.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Rapsódia do Estrangeiro

"Nothing realy matters..."

Outro dia uma amiga falava do quanto o livro O Estrangeiro, de Albert Camus havia lhe causado impacto. Pensei, a mim também. Mas eu tive ao ler na verdade um grande incômodo, aquela história do sujeito que de repente mata um árabe na Argélia me pareceu sempre tão elitista e etnocêntrica. Qual o sentido daquilo?

Claro, dirão, é a defesa da tese do absurdo, tão cara a Camus. A vida é absurda porque termina na morte, e não importa se daqui a algumas horas, meses ou anos, é sempre eu ou voce que iremos morrer. Isso incomoda e tal qual a famosa espada de Dâmocles, nos faz ou perder o interesse (ou o gosto) pelas coisas da vida ou nos faz viver de forma cínica, ou rejeitar a nossa finitude...

  
(Westall- A espada de Dâmocles - 1812 )

No livro de Camus, o protagonista Meursault inicia assim: "Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: 'Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.' Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem." Muitos se impressionam com a frieza dele, que não chorou a morte de sua mãe...

Então hoje, ouvindo Bohemian Rhapsody do Queen pude entender melhor Meursault. "eu não queria morrer agora, às vezes acho que não deveria nem ter nascido..."


"Nothing really matters...to me..."